segunda-feira, 29 de novembro de 2010

a solidão e sua porta

Para mim este poema do pernambucano Carlos Pena Filho, que sei de cor há bem uns 50 anos, devia ser um quadrinho na sala de espera de todos os terapeutas deste país. Aí vai:

A Solidão e Sua Porta

(de Carlos Pena Filho)

Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório

sábado, 27 de novembro de 2010

como fazer cinema

Aqui em Brasília, onde estou jurado do Festival de Cinema, está rolando no CCCB uma mostra sobre o Alejandro Jodorowsky, que admiro desde que vi El Topo numa sessão à meia noite numa sexta feira de 1971 em NYK. Aliás ofilme só passava num único cinema do East Village, apenas às sextas feiras, apenas à meia noite, por isto condiderado o precursor do filme cult. Do catálogo da exposição tirei este fascinante texto que bem revela o cineasta. teatrólogo. místico. tarólogo. terapeuta chileno, atualmente um cidadão do mundo.

Como Fazer Cinema - Alejandro Jodorowsky

 

1. PRIMEIRA LIÇÃO Sentar-se do amanhecer ao anoitecer na frente de uma árvore sentindo a luz. Voltar por sete dias seguidos e fazer o mesmo.
2. SEGUNDA LIÇÃO Voltar à noite com uma lanterna e iluminar a árvore por infinitos pontos distintos.
3. TERCEIRA LIÇÃO Colocar-se a um quilômetro da árvore. Olhar para ela fixamente e avançar centímetro por centímetro em direção a ela até que, depois de algumas horas, se choque o tronco com o nariz. (As duas primeiras lições servem para desenvolver o sentido da luz. A terceira para desenvolver o sentido da distância).
4. QUARTA LIÇÃO Colocar-se em um interior ou paisagem e mover-se pensando que seu próprio peito fotografa, depois pensando que a sua cara fotografa, depois o sexo, depois as mãos.
5. QUINTA LIÇÃO Coloque-se em um lugar e sinta que você é o centro dele. Logo sinta que está sempre na superfície ao redor do lugar. Ao final rompa a idéia de centro e superfície. Está aí, tudo está em você e fora de você ao mesmo tempo. Você é a parte do lugar. Existe o lugar. Você desapareceu!
6. SEXTA LIÇÃO Procurar a cor que não tem cor. Pegue uma página branca e veja suas cores. Pegue uma página preta e veja suas cores. Veja as cores de um vidro transparente. Descubra o arco-íris em um pedaço de terra, em um cuspe, em uma folha seca. Expresse a cor com materiais sem cor. Na verdade lhe pergunto, você sabe quantas cores tem a pele da sua cara?
7. SÉTIMA LIÇÃO Sinta as pontas dos seus dedos como se fossem a ponta da sua língua. Apóie as pontas dos dedos nos objetos do mundo pensando que são frágeis, que uma pequena pressão pode quebrá-los. Peça-lhes permissão antes de tocá-los. Antes de apoiar os dedos na sua superfície, sinta como penetra na sua atmosfera. Aprenda a sentir e a acariciar com respeito. Qualquer ação que faça no mundo com as suas mãos ou corpo pode ser uma carícia.
8. OITAVA LIÇÃO Pense que os atores vivem dentro de um corpo como centro de uma caverna. Peça-lhes que não gritem com a sua boca, e sim dentro de sua boca. Que não se expressem com a cara, e sim com vibrações. Viva debaixo da superfície. A superfície do rio não se move, mas você sabe que leva correntes profundas.
9. NONA LIÇÃO Não importam os movimentos de câmera. Ela deve mover-se somente quando não puder ficar quieta. Você leva o alimento na mão. A câmera é um cão. Faça-a seguir com fome o alimento. A fome faz com que o animal se apague. Não há cão, não há fome, não há câmera. Há acontecimentos. Você nunca pode comer a maçã inteira no mesmo instante. Tem que dar mordiscadas. Enquanto come, você tem uma parte. Deve saber que o pedaço que mastiga não é a maçã inteira. Você nunca pode ter a maçã inteira na boca porque por maior que seja a sua boca, não pode caber nela o fruto que é parte da árvore nem a árvore que é parte da terra. A tela é a sua boca. Ali entram pedaços. Partes do acidente. Não tente trabalhar com planos absolutos. Não creia que existe o plano melhor. Se pode morder a maçã em qualquer lugar. Se a maçã é doce, não importa onde você comece a comê-la. Preocupe-se com a maçã, não com a sua boca. Cineasta! Antologia de fragmentos, você também tem um fragmento, seu filme inconcluso, você é parte, é continuação. Não há encerramentos. Mate a palavra fim. Você começará um filme no dia em que ser conta que você simplesmente continua. Não procure o prestígio. Desdenhe os efeitos. Não adorne. Não pense o que a imagem vai produzir. Não a procure. Receba as imagens. A caça está proibida. A pesca está permitida.
10. DÉCIMA LIÇÃO Nunca trabalhe no papel seus movimentos de câmera. Chegue aos lugares pensando que você não irá mover a câmera, que não irá iluminar, que não irá inventar. Não crie cenas, crie acidentes. Não crie esses acidentes em direção à câmera. Você não está fazendo um filme, você está metido em um acidente. Parte do acidente são seus movimentos de câmera.
11. DÉCIMA PRIMEIRA LIÇÃO E de repente, o grande prazer. Um plano pensado com a câmera opinando com luz artificial, com “atuações” (uma verdadeira sobremesa!). De verdade lhe digo, por este caminho você pode chegar a fazer filmes de Hollywood dos anos 40. Se você quer ser um grande cineasta de vanguarda, volte a filmar “E O Vento Levou”, exatamente igual, com atores de corpos gêmeos aos de Clark Gable e Vivian Leigh. Se conseguir que seu filme não possa ser distinguido do original, você passou à história.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

diretamente do planalto central

Cheguei hoje de manhã em Brasília, onde estou sendo jurado do Festival de Cinema. Chegar de avião em Brasília, ver lá de cima o cerrado e de repente uma cidade retro-futurista surgindo do meio do nada, é sempre mágico..

Brasília para mim é cinema. Venho aqui desde 1966, com meu primeiro curta, Heitor dos Prazeres. Depois disso voltei várias vezes, com Ver Ouvir, Copacabana me Engana, A Rainha Diaba - enfim, muitos filmes meus participaram deste festival.

A cidade está calma e silenciosa. Não vi nenhum carro nem nenhum ônibus sendo incendiado nas ruas. Porém mal liguei a TV no quarto do hotel e dei de cara com a hecatombe do Rio.

Olha, o JK foi esperto, imagina se a capital do país fosse aí, nessa cidade refém de traficantes ensandecidos?

Não tenho a menor vontade de assistir Tropa de Elite 2? Para que, se o filme já está nas ruas? Nós somos todos personagens dele.

Quando terminar o Festival estou com vontade de ir ao Palácio do Alvorada e pedir asilo político para o Lula. Que ele me mantenha em Brasília até o dia que a guerrilha urbana carioca chegar ao fim.

Será que esse dia vai chegar?

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

diretamente da frente de batalha

Estou escrevendo de casa, com a Band 49 ligada, acompanhando o relato do Boechat e de seus ouvintes sobre os incêndios que aterrorizam a cidade. Estou com medo de sair de casa, pois moro na Usina e meu trajeto fatalmente incluirá a Paulo de Frontin, onde esta madrugada um ou mais carros foram incendiados.

Aparentemente a Paulo de Frontin é uma das áreas de conflito, tanto como a Praça General Osório, Laranjeiras, Brás de Pina - enfim, a cidade é uma área de conflito. O chefe da polícia mandou avisar que isto acontece porque os bandidos estão aterrorizados, mas minha impressão é outra. Parece que os bandidos estão agindo com muita calma e muita frieza, com o simples objetivo de aterrorizar a população. Ou seja, me desculpem, doutor chefe da polícia e demais autoridades, municipais, estaduais e federais, quem está aterrorizada é a pupulação desta cidade uma vez dita "maravilhosa".

A impressão é que esta é uma cidade fadada ao desastre. Enquanto o prefeito recupera o cais do porto, imitando uma recuperação ao estilo novaiorquino, enquanto o governador blinda a Zona Sul e a Tijuca, para atender aos compromissos assumidos em função da próxima Copa do Mundo, as ruas continuam esburacadas, os sinais de trânsito continuam desprezados, os ônibus vazios continuam a atravancar as ruas, o metrô continua um experimento de como transformar um vagão numa irrespirável lata de sardinhas.

Minha vontade é me refugiar no meu sítio em Friburgo, mas temo ter o carro incendiado no trajeto, na temível Linha Vermelha. O que fazer? Acho que hoje o melhor é ficar em casa, na Usina do Borel e da Formiga "pacificados", lendo Rubem Braga e José Carlos de Oliveira, para, pelo menos na ilusão, sentir que ainda moro na Cidade Maravilhosa...

Maravilhosa? Quem dera...

domingo, 21 de novembro de 2010

71+1 dia

Esse négócio de resolver ter um blog cria uma certa obrigação, né? Tem que escrever alguma coisa todo dia. Hoje é o primeiro dia do meu septuagésimo (será que escreve assim) segundo ano neste planeta.  Com uma visita a Olaria, bairro que eu conhecia muito pouco, ao conjunto dos comerciários, para visitar uma grande figura, o Heitorzinho dos Prazeres. Fizemos um escambo - dei para ele um dvd do meu primeiro filme - Heitor dos Prazeres - sobre o pai dele - e recebi em troca, uma troca muito generosa, um quadro do velho Heitor, uma cabrocha cantando acompanhada por três sambistas. O Heitorzinho é cantor, tem um conjunto, os filhos dele são músicos, o conjunto dos comericários é um lugar muito acolhedor, pacífico e caloroso, o Rio é tão e muito mais do que o que se avista da beira das praias. É curioso, me impressiona muito o bairrismo da Zona Sul, que acha que o outro lado do Rebouças é uma terra de ninguém. Uma das grandes coisas que me aconteceu  foi por acaso ter deixado a ZS pela Tijuca,  perdi um pouco da cegueira à beira mar, comecei a enxergar melhor a cidade. O Rio é muito maior que a Ipanema do Tom ou o Leblon do Manoel Carlos, muito maior e muito mais rico e muito mais vivo do que os míticos bairros à beira mar.Viva Olaria!

sábado, 20 de novembro de 2010

71 anos neste planeta

Nem parece que já se foram 71 anos. Eu cheguei nesse planeta faz tão pouco tempo, em novembro de 39, parece que estava começando uma guerra mundial, a segunda, se não me engano...

Minha sensação é que já vivi muitas vidas nestes 71 anos. Que encarnei e reencarnei aqui mesmo nessa atual vida. O Antonio que filmou Ver Ouvir ainda deve estar por aqui, mas eu converso muito pouco com ele. E o da Rainha Diaba? Será que continua espirrando sangue em volta?

Vidas passadas não movem moinhos. Movem nuvens...

Se os quânticos estiverem certos num desses universos bifurcados eu sou um geofísico. Em outro talvez um baterista de jazz. Em outro um romancista - ou um pianista. Tem todos esses caras aqui dentro, mas muitos nunca vão sair detrás do biombo.

É engraçado, 71 na pista, de repente com idéia escrever um blog. Será que algum dia alguém vai ler? Será que algum dia vou me lembrar que inventei um blog?

Estou lendo um livro do Stephen Hawkings onde ele faz muitas perguntas:

Por que existe alguma coisa em vez de nada?
Por que nós exisitimos?
Por que este conjunto particular de leis e não algum outro?

Os quânticos são pirantes. Agora descobriram que existem 21 dimensões. E nós aqui, vivendo em três ou quatro...